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Dieta da Proteína – estudo de caso

10-05-2013

gaz05Em dezembro de 2004, recebo no consultório um paciente antigo, que desde a década de 90 já buscava mudanças em sua composição corporal e que ao longo dos anos passados, perdeu e reencontrou vários quilos de gordura e massa magra. Neste nosso reencontro ele estava então com 44 anos. Era um professor universitário, com altura de 1,74m e peso de balança 84,3kg. Na avaliação antropométrica, usando o método de aferição de dobras (pregas) cutâneas, medi 28,6% (um homem nesta idade pode ter em média 17 a 23%) e circunferência abdominal de 95,8cm. Seu objetivo: recuperar o peso de 70kg com 16,6% de gordura e circunferência abdominal de 80,9cm que havia atingido em outubro de 2003, mas que não conseguiu manter ao longo de um ano.

Seu perfil não era e nem nunca foi o de uma amante de esportes. Fazia atividade física (musculação 3 vezes/semana e dava a volta na Lagoa Rodrigo de Freitas 2 vezes/semana), mas não gostava. Fazia (e faz até hoje) por pura obrigação. Apresentava queixas de dores lombares e no pescoço. Isso limitava seus movimentos e cargas nos treinos com pesos e na própria intensidade das caminhadas, o que limitava também seu gasto calórico. Tudo isso já era um motivo mais que suficiente para tentar não comer além da conta.

Depois de muita argumentação de ambas as partes, optamos por tentar a dieta da proteína, pelo menos no início (no máximo 6 semanas), como estímulo para que, motivado pela rápida perda de peso e medidas, as modificações em sua rotina alimentar fossem sendo apresentadas e incorporadas gradativamente, até que, ao final, estivesse novamente comendo mais fracionadamente (e não apenas 3 vezes/dia).

Seguindo o protocolo do Dr Atkins, mas sendo cautelosa, limitei suas calorias diárias em 1400kcal. Só não consegui ficar com menos de 20g de carboidratos/dia. Fechei a conta com 26g.

CARDÁPIO:

Desjejum

1 xícara de café descafeinado com leite desnatado (cafeína não é permitido, pois estimula a insulina)

6 fatias de peito de peru ou 8 de blanquet de peru

1 fatia média de queijo minas

Almoço

½ prato de salada de brócolis, palmito e tomate

Carne magra grelhada (200g)

Não aconselhei (nem aconselho) líquidos junto às refeições, mas se não conseguisse ficar, no máximo 1 copo de 300ml de limonada suíça

Lanche

2 unidades de queijo tipo Polenguinho light

100g de peito de peru

Jantar

1 prato de salada verde

1 fatia média de queijo minas + 100g de salmão defumado (1 bandeja de carpaccio)

ou

2 hambúrgueres de frango assados ou grelhados

Sobremesa – 1 porção de Gelatina diet

Ceia

1 copo de 200ml de leite desnatado com achocolatado diet

Resultado: em 4 semanas, passando pelas festas de fim de ano, seu peso baixou 4,3kg e seu percentual de gordura baixou de 28,6% para 24,8%. Ele conseguiu, mesmo nesta depleção de carboidratos, preservar sua massa magra e manter-se fazendo atividades físicas nas mesmas intensidade e frequência.

Como sua necessidade de perda de peso total era de 14kg e sua perda em 4 semanas foi de 4,3kg, pela tabela proposta para avaliação do grau de resistência metabólica em homens*, interpretei que ele tinha alta resistência, por isso propus que mantivesse esta mesma programação por mais 4 semanas. Mas como ele relatou que a monotonia estava tornando sua aderência ao programa difícil, propus o acréscimo de 1 porção de carboidratos no almoço (4 colheres de sopa de arroz integral ou 1 batata doce média assada). Nada como uma porçãozinha básica de glicose para levantar o ânimo!

Depois de mais 2 semanas, ele perdeu pouco peso na balança (700g), mas quando medimos a composição corporal, sua perda de gordura foi de 2,9kg e o ganho de massa magra de 2,2kg. O “poder” dos carboidratos mostrando sua força! Isso o motivou a seguir em frente por mais 6 semanas, quando então pesava 74,8kg com 19,1% de gordura. Na avaliação seguinte (5 semanas depois), já pesando 71,3kg e com 18,3% de gordura (muito perto de sua meta), aumentamos a quantidade de calorias e carboidratos para 1600kcal e 95g respectivamente. Isso significa dizer que mais uma alegria foi incorporada a rotina (2 fatias de pão integral no desjejum).

Passaram-se mais 4 semanas e em abril de 2005, ou seja 4 meses após nosso primeiro reencontro, ele já pesava um pouco a mais na balança (72,8kg), contudo seu percentual de gordura havia caído para os 16,8% e a circunferência abdominal estava em 84,7cm. Assim sugeri que pequenos incrementos com carboidratos fossem dados e, para tanto, era bom que ele passasse a comer frutas, algo que sempre discutimos muito, pois ao longo de seus 40 e poucos anos não criou o hábito de comê-las, já que comia doces quase diariamente.

O fato que é que 4 semanas depois (início de junho de 2005), seu retorno mostrou ligeiro aumento de peso na balança (600g), mas na composição corporal seu percentual de gordura havia voltado para 18,3% e sua massa magra caído em 600g e a circunferência abdominal 87cm. Alerta ligado! Mas não adiantou.

Seu próximo retorno foi acontecer apenas 4 meses depois, e o que sempre dizemos que acontece, de fato aconteceu: em apenas 16 semanas seu peso de balança estava em 81,2kg, seu percentual de gordura em 28% e a circunferência abdominal em 95cm. Ou seja, recuperou tudo o que perdeu, e o que é pior, recuperou em menos tempo, mas ficou tentando sozinho perder o que havia ganho e só foi “metendo os pés pelas mãos”. Antes que piorasse ainda mais, me procurou novamente.

Isso confirma o que dizemos: dietas funcionam enquanto são feitas, a única questão é por quanto tempo duram? Ou melhor, por quanto tempo são toleradas? Sendo que perder pesos e medidas é relativamente fácil quando comparado a manter, não só isso, mas também conquistas de bem estar, melhora do perfil bioquímico, melhora da auto-estima e por aí vai. Há que se regar um pouco todo dia!

Para vocês terem uma ideia  esse paciente tem hoje 54 anos e ainda frequenta o consultório. Ao longo dos anos, perde e ganha peso, reduz e aumenta a circunferência abdominal. Reduz e aumenta seu percentual de gordura. Quanto à qualidade de sua alimentação, depois de tantos anos me ouvindo falar, pequenas mudanças e avanços foram feitos. Mas o fato é que ainda não se libertou da necessidade de uma dieta específica. Sem falar nas sucessivas vezes em que, estando tão perto de sua meta, vários outros compromissos tomam maiores proporções e nunca fazemos um fechamento. Não o vejo precisamente há 5 meses, quando então já havia perdido em 5 meses: 10kg, 9% de gordura.

Por isso reforçamos, não é a dieta e sim um compromisso de bem-estar e um estilo de vida com o qual você consiga conviver por Toda Vida.

 

*GRAU DE RESISTÊNCIA METABÓLICA EM HOMENS

 

PESO PERDIDO EM RELAÇÃO À RESISTÊNCIA METABÓLICA

Kg a perder em 14dias

ALTA

MÉDIA

BAIXA

< 10kg

2

3

4

10-25 kg

3

4,5

6

>25kg

4

6

8

 

Dieta de Atkins

06-05-2013

Mais conhecida e popular como dieta da Proteína, esta dieta foi criada na década de noventa pelo médico americano Dr. Robert Atkins com o título “A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins”. Na capa do livro ela se apresenta como “Um método sem fome que já ajudou milhões de pessoas em todo o mundo a: perder grandes quantidades de peso em apenas 14 dias, (…) manter a forma para sempre, sem deixar de comer as delícias da cozinha internacional.”

Por esse título e essas promessas, já imaginamos que essa dieta realmente traz algo de diferente ou até contrário a tudo aquilo que já lemos e ouvimos sobre o assunto. Mas, para um(a) nutricionista, “perder grandes quantidades de peso em apenas 14 dias” ou “sem deixar de comer as delícias da cozinha internacional” é o mesmo que ver uma propaganda de “trago o seu amor em 3 dias”.

Popularmente, ela se disseminou com o conceito de poder comer o quanto quiser de proteína e gordura e cortar radicalmente os carboidratos, tendo como resultado uma perda de peso muito expressiva (até 4kg) em uma semana. Seguir este plano significa eliminar frutas, legumes (além das batatas, cenoura, abóbora, beterraba, chuchu, vagens), cereais em geral, pães, massas, bebidas fermentadas (cerveja, vinho e saquê), leite e iogurtes (porque tem a lactose-açúcar do leite) e, seguindo o modelo americano, comer sem limites, carnes, bacon, ovos, queijos gordurosos, frios e embutidos (salsichas, linguiças). Ou seja, fuja das feiras, dos restaurantes italianos e pizzarias e viva na churrascaria!

Para os que cresceram com o péssimo hábito de não gostar e não comer frutas e legumes parece ótimo, não?!

Na época, e até hoje, por mais que esse modelo de dieta faça muito sucesso, ele é bastante combatido por profissionais de saúde (médicos e nutricionistas, principalmente) que acreditam que esse tipo de alimentação seja responsável pelo aumento dos níveis sanguíneos do mau colesterol (LDL).

O real modelo proposto pelo Dr. Atkins, recomenda 14 dias com menos de 20g de carboidratos/dia para induzir a redução drástica dos níveis de insulina e estimular a lipólise (quebra das gorduras). Essa quantidade é o equivalente a 100 de fruta (ex: 1 maçã pequena), 1 copo de leite ou 4 colheres de sopa de legumes como abóbora e cenoura.

Dependo da perda de peso alcançada nesta fase (chamada Fase I de Indução), se avança para a Fase II da Perda de Peso Contínua (FPPC), que dura de 2 a 8 semanas, onde a ingestão de carboidratos será ligeiramente aumentada ou não.

Para os que perderam menos de 4kg nas 2 primeiras semanas de restrição, esta segunda fase segue com 15g de carboidrato ou menos/dia e para os que atingiram grandes perdas de até 8kg em 2 semanas, pode-se chegar  até 60g de carboidratos/dia.

Quando restam 2,5kg a 5kg de peso  a perder, se entra na Fase III a de Pré-Manutenção, onde são permitidos “desvios construtivos” (1 a 2 vezes/semana comer 1 fruta ou 1 prato de amido – batata, massa ou pão).

Exemplos de cardápios:

 

alimentos-permitidos-Dieta-Dr.-Atkins

 

Fase I (Indução):

Desjejum – Ovos mexidos com bacon ou presunto ou salsicha ou lombinho canadense. Sem adição de açúcar.

Almoço – Cheeseburguer sem pão com um pouco de salada.

Jantar – Bife ou frango ou peixe com salada mista (molho à escolha) e gelatina diet

Fase II (FPPC):

Desjejum – Omelete com ½ copo de suco de tomate e ¼ de fatia de pão light.

Almoço – Salada com presunto, queijo, ovos e frango (evitar temperos avinagrados ou que tenha carboidratos como vinagre balsâmico).

Jantar – Salada de frutos do mar com salmão assado, 2/3 de verduras crúas e ½ xícara de chá de morangos com creme de leite.

Fase III (Pré-Manutenção):

Desjejum – Omelete de queijo Gruyère e espinafre com ½ melão pequeno e ½ de fatia de pão light com manteiga (café ou chá descafeinados).

Almoço – Frango assado com 2/3 de xícara de chá de verduras cozidas e salada verde (pode beber 1 copo de ClubSoda).

Jantar – Sopa de cebola, salada de tomate, cebola, cenoura com ½ batata pequena ao forno com creme de leite azedo, costeletas de vitela levemente passadas na farinha de rosca + 1 xícara de chá de compota de frutas frescas (pode beber 1 taça de vinho).

 

Então vamos aos fatos:

Pontos positivos:

1 – Os que são pouco resistentes aos carboidratos perdem de 6 a 8kg em 14 dias;

2 – Para os que precisam perder no total mais de 20kg, é um ótimo estímulo;

3 – Alta saciedade. Pelos baixos níveis de insulina e grande ingestão proteica não há sensação de fome, por isso bastam apenas 3 refeições diárias;

4 – Não foi evidenciado que este tipo de dieta eleve os níveis de colesterol LDL;

5 – Para os que não gostam de frutas e verduras torna-se, a princípio, mais facilmente executável.

Pontos Negativos:

1 – Perda do humor (o cérebro é o único órgão que vive exclusivamente de glicose e são necessários no mínimo 100g/dia e não as 60g propostas já na fase de manutenção);

2 – Para quem faz exercício há queda significativa do rendimento durante as atividades e maior propensão à lesões musculares;

3 – Halitose. Devido ao quadro de cetose (quebra de gorduras sem a presença de carboidratos que leva à produção de substâncias chamadas corpos cetônicos), o hálito fica semelhante ao de diabéticos descompensados (famoso hálito de maçã);

4 – Suor fétido. Devido a falta de carboidratos, o organismo passa a quebrar proteínas para fabricar sua própria glicose (chamada gliconeogênese) e com isso há um aumento significativo da produção de amônia, que é expelida através do suor;

5 – Desmineralização óssea. A alta ingestão de proteínas com baixa ingestão de frutas e hortaliças, acidifica a urina, levando a maior excreção de cálcio.

6 – Grande perda de líquidos, o que acarreta em grande perda de massa magra, podendo levar a perda muscular, que corresponde a cerca de 20-25% do peso magro.

7 – Difícil execução a médio e longo prazo pela monotonia e monocromia do cardápio.

8 – Por conter muitos embutidos, laticínios (queijos gordurosos) e permitir o consumo de azeitonas, por exemplo, é uma dieta com alto teor de sódio.

Amanhã apresentaremos um caso de consultório, com resultados de pacientes que fizeram essa dieta.